Yes, we can... <br>Nothing! (I)

«Independentemente do que dizem certas agências de notação financeira, o nosso país merece e sempre merecerá a nota AAA! (a máxima)».

Esta basófia foi proferida por alguém inesperado: o presidente dos EUA, Barak Obama. E disse-a a seguir a uma das famosas agências de rating (três, e todas norte-americanas) ter decidido baixar o tal rating dos EUA para o nível abaixo (do triplo AAA para AA+).

Convenhamos que gritar aos quatro ventos que os EUA serão sempre os primeiros do «triplo A» quando, precisamente, uma agência de notação havia desclassificado o país para um lugar abaixo, é um grito ele próprio totalmente desclassificado.

O facto de, ainda por cima, ser pronunciado pelo presidente dos EUA só o torna, digamos... também patético.

 

Yes, we can...
Nothing! (II)

 

Mas o presidente Obama não se ficou por aqui.

Após isto, espraiou-se num discurso inacreditável de «manifestação de confiança na América», onde só faltou pôr-se em sentido, enfiar um chapéu à George Wsinghton e gorjear o Stars and Stripes.

Anote-se, antes de mais, que é a primeira vez, na história dos EUA, que o país é «desclassificado» do primeiro lugar nestes ratings, o que constitui uma humilhação de peso para a administração Obama.

Anote-se, ainda, que ver o líder da primeira potência mundial, num momento de grave crise económica e social no seu país e no mundo, pôr-se a bater no peito discursos patrióticos e a debitar encómios ao passado é – além de patético, confrangedor e ridículo – uma evidência escarolada da mediocridade de Obama, quer como líder individual, quer como responsável por toda uma administração.

 

Yes, we can...
Nothing! (III)

 

Se, finalmente, recordarmos o autêntico «frémito mundial» de esperança que constituiu a candidatura de Obama e o seu festejado slogan Yes, we can! temos matéria mais funda a desossar.

Assinale-se, mesmo de passagem, que esse «frémito de esperança» também adejou por Portugal, não havendo «eminências», «respeitabilidades», político no activo ou no passivo que não se pronunciassem entusiasticamente sobre este candidato. E a coisa assolou desde presidentes da República até primeiros-ministros, presentes ou passados, continuando por uma plêiade indeterminada de ministros e correlativos.

A «grande esperança» foi-se esboroando desde o início. É que Obama, apesar de ter sido eleito através da votação presidencial mais concorrida desde há décadas (70% de afluência às urnas) e de ter obtido uma votação que o elegeu com a maior vantagem absoluta e comparativa também desde há décadas e de, finalmente, ter sido eleito com maioria absoluta em ambas as câmaras, não só não fez nada do que prometeu (criação de um Serviço Nacional de Saúde, encerramento da ultra ilegal prisão de Guantánamo, saída das tropas do EUA do Iraque dentro de um ano e etc.), como o que fez foi continuar a política catastrófica realizada por Bush e deixar agravar as contradições – sempre inevitáveis – do capitalismo.

De facto, a famosa consigna de Obama Yes, we can! (Sim, nós podemos!) depressa se transformou em.. Nothing (Nada).



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